Gaia apresenta um abastecimento de água robusto e resiliente

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19-08-2026 | 14:08 | |

Gaia apresenta um abastecimento de água robusto e resiliente

Escrito por Carla Marques

Bruno Coimbra, presidente da Águas de Douro e Paiva, falou da missão da empresa e apontou o rumo a seguir no futuro, em entrevista a O Gaiense.

Qual o objeto de atividade da Águas do Douro e Paiva (AdDP)?
A nossa missão é captar, tratar e transportar água para 22 municípios do Grande Porto. Fazemos o abastecimento em alta e depois entregamos essa água aos municípios e às entidades gestoras concessionadas, que depois asseguram a sua distribuição para o consumidor final.

Como se faz a ligação com os serviços municipalizados, nomeadamente, com a Águas de Gaia?
Há uma relação de parceria e de proximidade institucional. O munícipe de Gaia quando abre a torneira não olha para isso como dois serviços, mas sim como um serviço único e é esta responsabilidade partilhada que acaba por orientar a nossa relação com a Águas de Gaia. Há uma articulação permanente entre as equipas operacionais.

Há uma ligação permanente entre as duas entidades?
Há um planeamento dos consumos e do fornecimento, há reuniões periódicas com a Águas de Gaia (e com todos os municípios) para analisar a qualidade da água fornecida. Há partilha de informação operacional e o portal do cliente também partilha em tempo real os consumos, as pressões em cada ponto de entrega, em suma um conjunto de informações como gestão de reservas, controlo de qualidade da água e também questões operacionais relacionadas com obras, intervenções nas redes, respostas a ocorrências ou a situações de emergência. Gaia é um município muito importante, quer porque é um dos nossos municípios acionistas, mas é também o segundo município com maior volume de água consumida (atrás do Porto). Há também uma relação de proximidade geográfica: a nossa principal estrutura industrial está em Lever (Gaia).

Não há sobreposição de serviços?
Cada um tem a sua missão que são complementares e sequenciais. A da AdDP é abastecer 1.8 milhões de pessoas, do universo dos 22 municípios do Grande Porto. Temos uma área de intervenção de 2.715 quilómetros quadrados de área e transportamos 107 milhões de metros cúbicos de água. Temos zero falhas no abastecimento, mas precisamos, obviamente, desta relação com o sistema em baixa para que as pessoas possam beneficiar de todo este trabalho. São coisas distintas, mas complementares. 

A qualidade no abastecimento da água está garantida?
Não produzimos só água em grande quantidade. Abastecemos água de elevadíssima qualidade que é assegurada e garantida por um plano de segurança da água que tem monitorização permanente. Temos um laboratório próprio e acreditado em Lever desde 2010 que abrange diferentes áreas: amostragem, biologia, microbiologia e físico-química. Fazemos mais de 60 mil análises por ano a 50 parâmetros. Só em 2025 realizámos mais de 10 mil análises nos pontos de entrega nos diferentes municípios. Para além disso temos uma relação muito próxima e transparente com as entidades que fazem o transporte em baixa, neste caso com a Águas de Gaia, mas também com a entidade reguladora, a ERSAR, e a Autoridade de Saúde. Há um controlo de qualidade da água desde a origem até aos pontos de entrega e uma monitorização laboratorial permanente (temos equipas especializadas de monitorização do sistema em tempo real, o que permite uma segurança significativa). 
A par disso há também uma política de transparência, com a divulgação pública dos resultados no nosso site e a partilha de informação com as entidades competentes em permanência. Temos 99,95% de conformidade e recebemos um prémio de excelência e o selo de qualidade do nosso serviço atribuído pela ERSAR. 

A água que tratam é captada no Douro ou há outras captações?
A AdDP, tem seis origens diferentes de água, nos rios Douro, Paiva, Ferreira, Ferro, Vizela e Ovil. E ainda tem uma origem subterrânea no Carregal – Ovar. Temos cinco Estações de Tratamento de Água (ETA), sendo a principal a de Lever, que está na nossa principal origem, o Rio Douro, onde se capta e trata 85% da água que distribuímos. Em Lever  temos três captações, uma superficial e duas subaluvionares, o que dá redundância e resiliência ao nosso sistema.

A dimensão da ETA de Lever faz dela uma referência nacional?
A ETA de Lever é impressionante por si só. Entrou em funcionamento em 2000 e é a nossa principal infraestrutura de produção. Transforma água bruta em água potável, segura e de elevada qualidade. É uma referência nacional e até europeia, pela sua dimensão, pela sofisticação tecnológica, pela fiabilidade operacional e pela integração paisagística que também é bastante relevante.
Só a ETA de Lever abastece cerca de 1.6 milhões de pessoas. Portanto, estamos a falar de aproximadamente 85% da população que é servida pelo sistema Águas de Douro e Paiva. Tem uma capacidade instalada de 400 mil metros cúbicos por dia, sendo que a produção média anual anda abaixo disso, anda nos 260 mil metros cúbicos por dia.

Então estão aquém daquilo que podem fornecer?
Podemos fornecer mais água. Neste momento servimos, como já disse, 1.8 milhões de pessoas. Temos cinco estações de tratamento e oito captações de água. Temos ainda 512 quilómetros de condutas, 38 reservatórios, 27 estações elevatórias e 485 quilómetros de fibra ótica. Vendemos 107 milhões de metros cúbicos de água no último ano. Temos 41,4 milhões de euros de volume de negócios e um índice de conformidade de 99,95% da qualidade da água, zero falhas no abastecimento de água e 160 trabalhadores. Esta casa não funciona sem alta tecnologia, mas no centro de tudo estão as pessoasque trabalham para garantir um serviço contínuo e permanente a esta população.

E em termos de perdas?
A questão das perdas é uma prioridade. O nosso país tem uma média de 30% de perdas em baixa e nos sistemas em alta ronda os 5.2%: Na AdDP em 2025 foi apenas de 2.5%. Estamos muito bem nesse índice, mas é algo que tem que ser permanentemente trabalhado. Num contexto de maior escassez, como é o atual, cada metro cúbico de água conta. E reduzir perdas é uma responsabilidade, não só ambiental, mas, sobretudo, operacional e económica. Porque cada metro cúbico perdido na rede já foi captado, tratado e transportado, portanto, significa desperdício de água, de energia e de reagentes.

A falta de água em Almada foi notícia há pouco tempo. Poderá haver falta de água em Gaia?
Não se podem comparar sistemas diferentes com modelos de gestão diferentes. Nenhum sistema está completamente livre de risco. Mas a nossa responsabilidade é antecipar esses riscos e criar redundâncias para estarmos preparados para responder em todos os cenários. É isso que fazemos na AdDP e que pode tranquilizar os munícipes de Gaia. Daí termos uma ausência de falhas de abastecimento nos nossos pontos de entrega. Garantimos uma robustez do nosso sistema, porque a preparação também se faz antes da crise. Estamos a ultimar um plano, porque pese embora o sucesso alcançado sabemos que estamos perante cenários imprevisíveis em que as alterações climáticas, os fenómenos extremos, ocorrem com outra regularidade. Este plano de resiliência operacional 2026-2030 que estamos a implementar olha para esses riscos mais complexos, mais interdependentes e isso permitirá, do ponto de vista operacional e em cenário de crise ganhar tempo, manter as infraestruturas essenciais em funcionamento e garantir capacidade de resposta. No fundo, é um plano que reforça a nossa autonomia, segurança e a coordenação do sistema. O plano prevê um investimento global de 12.4 milhões de euros só para a região do Grande Porto e está estruturado em cinco eixos: Reservas estratégicas de água, autonomia energética, resiliência das comunicações, governança e coordenação de crise, inteligência e apoio à decisão.  Há projetos previstos, nomeadamente dois novos reservatórios em Gondomar e em Gaia (SeixoAlvo) que permitirá um reforço da capacidade de armazenamento em 34 mil metros cúbicos de água. Temos também pensada uma rede de geradores próprios e de reforço de reservas de combustível, para permitir um aumento da autonomia e da redundância energética e um reforço da rede da fibra ótica e da telefonia para as comunicações que é complementado por comunicações por satélite e sistemas dedicados a situações de emergência. O reforço da articulação entre equipas da empresa, municípios, autoridades e entidades da área de emergência também está contemplada, assim como uma monitorização reforçada e integrada do sistema e informação operacional crítica em tempo real, com melhores condições para antecipar em cenários de crise a nossa atuação e tomar decisões mais rápidas no futuro.

Os consumidores têm consciência que a água é um bem escasso?
É uma linha muito ténue entre a consciência, a disponibilidade e a necessidade. A disponibilidade permanente de água nas torneiras tornou-se algo comum, felizmente. E quando isso acontece é fácil esquecer o percurso, os recursos necessários para garantir esse serviço e toda a complexidade inerente. A água é um recurso limitado e cada vez mais pressionado pelas alterações climáticas, o que exige a adoção de comportamentos responsáveis. Queremos que a população conheça melhor o seu valor. 

A sustentabilidade é também uma preocupação? 
Não há Águas do Douro e Paiva sem sustentabilidade. Isso é uma ideia transversal a toda a atividade da empresa. Está no seu DNA. Está presente, desde logo, na proteção das origens, na reutilização da água, no controle das perdas, na eficiência energética, na produção de energia renovável, na valorização dos resíduos, na monitorização ambiental, na adaptação às alterações climáticas, no reforço da resiliência operacional e no nosso plano de resiliência operacional de 2026- 2030. Está em tudo, desde logo na economia circular e que temos, por exemplo, no tratamento das nossas lamas produzidas na ETA de Lever (são cerca de 1500 toneladas de lamas desidratadas por ano que são incorporadas no fabrico de aproximadamente 15 milhões de telhas). Estamos a falar de uma valorização de cerca de 99% dos resíduos que são produzidos. Temos também uma produção fotovoltaica significativa, a crescer todos os anos, que nos permite uma poupança anual estimada de 360 mil euros.

As pessoas queixam-se que a água é cara. Concorda?
Os bens mais essenciais, como a água, têm impacto nos orçamentos familiares. Agora, é preciso perceber que a fatura paga pelo consumidor inclui várias componentes para além da água consumida. Está lá o saneamento, os resíduos, taxas, por exemplo. Depois é preciso clarificar que nós fornecemos a água ao município ou à entidade que trabalha para o município. A nossa tarifa não tem a ver com o preço final. O que vem na fatura é o preço que cada município pratica pelo fornecimento da água na torneira. A nossa tarifa é a mais baixa do país do universo Águas de Portugal.

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